MODISMOS LINGUÍSTICOS?!

Marcos Bagno

Recentemente, recebi mensagem de um jornalista que pretendia escrever uma matéria sobre “modismos linguísticos”. Como sempre acontece quando esses profissionais tentam tratar de linguagem, a mensagem estava recheada de equívocos. É claro que entre os supostos “modismos” que ele listava aparecia o tal do “gerundismo” que, como eu já disse antes, existe tanto quanto a mula-sem-cabeça. A simples nomeação do fenômeno demonstra cristalinamente a total incompreensão do que realmente acontece. Seria mais do que recomendável (acho que deveria ser obrigatório) que os cursos de jornalismo (que na minha modesta opinião formam especialistas em nada) tivessem pelo menos um ou dois semestres de teoria e análise linguística, para que os futuros profissionais da mídia dissessem um pouco menos de besteira sobre língua em geral, e sobre o português em particular.

Por que o “gerundismo” não existe? Porque o gerúndio está onde sempre esteve no português. O que causa estranheza (ou até repulsa) da parte de alguns é o uso, não do gerúndio, coitado, mas de vários verbos auxiliares encadeados. Quando alguém diz “o senhor pode estar experimentando a roupa” ou “amanhã vou estar enviando o documento”, o que ocorre é o acúmulo de auxiliares, quando, imaginam alguns, bastaria dizer “o senhor pode experimentar” ou “vou enviar”. Qual a origem dessa construção? Atribuí-la à influência do inglês é uma batatada do tamanho de um bonde. Estamos aqui diante do que se chama aspecto verbal, isto é, categoria semântica que expressa detalhes qualitativos ou quantitativos internos de uma determinada ação, processo ou estado. Também pode ser definido como a posição que o falante assume com relação ao evento ou ação que está expressando. No caso do falso “gerundismo”, o que está em jogo é o chamado aspecto contínuo ou durativo, por meio do qual se expressa uma ação prolongada no tempo. Assim, se ninguém estranha ouvir “hoje estou trabalhando”, não tem por que estranhar “amanhã vou estar trabalhando”. Já ouvi alguém chamar isso de “futuro do gerúndio”, mais uma bobagem de quem não tem instrumentos de análise adequados. Alguns linguistas interpretam o uso de vários auxiliares, sobretudo na fala de prestadores de serviço, atendentes do comércio etc., como um recurso modalizador, uma forma de tornar menos rude uma expressão de comando. Uma questão de polidez? A verdade é que ainda faltam mais investigações sofre o fenômeno, antes de podermos estar oferecendo interpretações mais conclusivas.

O que me deliciou na mensagem do jornalista foi que em dado momento ele escreveu: “Irei fazer uma matéria sobre modismos linguísticos”. Ora, se fôssemos aceitar o conceito de “modismo”, decerto teríamos de aplicá-lo também a esse “irei fazer” que aparece ali. Afinal, essa construção nasceu justamente de uma tentativa dos mais letrados de fugir do futuro simples (“farei”), reconhecidamente moribundo no português do Brasil, e do futuro perifrástico (“vou fazer”) considerado indigno de ser usado na distorcida noção de “escrita” que teima em assombrar nossas ideias sobre língua. Assim, surgiu o “irei fazer”, que só figura em textos escritos hipermonitorados ou na fala que pretende ser “formal”, reprodução oralizada de algum texto escrito. Modismo? Não. Novamente, uma questão de aspecto, uma questão de discurso. Ah, se os jornalistas gostassem de estudar!

carosamigos

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